Como me tornei uma Expedicionária

Priscila Beal no Pantanal - Foto: Silvia Venturi

Em julho de 2016, participei de uma expedição da Rotas Verdes Brasil, ministrada pelo expedicionário e documentarista de natureza, Fernando Lara. O processo foi um Curso de Formação de Expedicionários, no qual passávamos por várias situações de uma expedição real. No meu caso, minha jornada teve início em Santana do Paraíso (MG), e terminou em Cusco, Peru. Dos 15 mil km de Expedição, percorri cerca de 6 mil km rodados em uma Toyota Bandeirante durante 1 mês.

 

O pequeno grupo de pessoas era um tanto quanto inconstante - algumas pessoas estiveram em apenas uma parte do trajeto, outras em todo ele e outras continuaram após a minha saída, percorrendo outros países. Independente da configuração, o nosso lema era “EU SOU O GRUPO”. Abandona-se o individualismo para que a ideia da coletividade tome forma e todos agiam como um só organismo.

A Expedição de Priscila percorreu mais de 5 mil km entre Minas e o Acre, seguindo para o Peru. Foto: Priscila Beal

 

Passamos por dezenas de cidades entre os estados de Minas, Goiás, Mato Grosso, Rondônia, Acre e, por fim, Peru. Outras pessoas percorreram também o Chile e a Bolívia. Vimos diversos tipos de vegetação e clima, animais, pessoas, sotaques, costumes, vestimentas, alimentos, construções... Tudo de uma maneira muito mais ativa se comparado a uma viagem convencional. Botamos a mão na massa e fazíamos a nossa própria expedição, o que incluía montar o acampamento, administrar as múltiplas tarefas de uma expedição, abastecer e fazer a manutenção do nosso querido carro, que foi onde passamos grande parte do tempo.

 

Passamos por perrengues, noites pouco e mal dormidas, banhos em rios nos quais haviam os mais diversos tipos de animais. Tudo feito com muito planejamento e sob as orientações do experiente Fernando. O mais importante era saber tomar os devidos cuidados, enfrentar os medos e seguir em frente.

O projeto propõe uma Expedição de forma rústica, dormindo acampado e preparando a própria comida em campo. Foto: Priscila Beal

Para citar apenas algumas coisas: entramos no dia a dia de ribeirinhos, caçadores e moradores em locais isolados pela natureza abundante. Coisas tão bonitas que às vezes não cabiam no peito e transbordavam pelos meus olhos. No Pantanal, avistamos incontáveis estrelas e meteoros. Tomamos banho à noite em um rio enquanto olhávamos para os jacarés, logo ali, do outro lado da margem. No meio da Floresta Amazônica (Floresta Nacional do Jamari/ICMBio), conhecemos dois caçadores, os únicos com permissão para caçarem animais silvestres no Brasil. Eles moram a 40 quilômetros de qualquer outra pessoa e precisamos de algumas horas para conseguir chegar até o local, incluindo trajeto de carro, canoa e trilha.

 

Vimos uma revoada de centenas de pássaros ao raiar do dia e depois vimos um filhote de onça. Lá enfrentei um dos maiores medos da minha vida ao ter que ficar mais de 3h sozinha no meio da floresta para fazer um exercício proposto. Não era obrigatório, mas eu quis enfrentar. Ao fim dele, a experiência foi tão boa que eu queria que tivesse durado o dobro, o triplo do tempo.

Experiências únicas no Pantanal, Amazônia e Cordilheira dos Andes. Foto: Priscila Beal 

No Peru, acampamos no lugar mais lindo que já fui na minha vida, e dificilmente sua beleza será superada por outro local que conhecerei. Uma paisagem indescritível composta por um lago azul turquesa cercado pelos Andes cobertos pela neve. O mal estar por conta da altura era forte e constante, o frio chegou a -8ºC dentro das barracas e nos pegou despreparados, o que fez com que passássemos a noite toda tremendo de frio.

 

Só quem já passou por algo semelhante sabe as dificuldades que enfrentamos para fazer uma simples refeição quando não se tem o conforto e a facilidade do nosso dia a dia na cidade. Não há mesa, não há fogão, a lenha está espalhada pelo mato e precisa ser escolhida com cuidado. Você está com fome e lá se vão horas para preparar sua comida.

Mal de altitude e temperaturas a oito graus negativos na Cordilheira dos Andes - Foto: Priscila Beal

Eu poderia continuar relatando por páginas e mais páginas tudo o que vi, senti, passei, aprendi. Quantas informações e quanto crescimento em tão pouco tempo. O tempo, esse que nos era tão precioso e precisava ser muito bem administrado. O tempo que lá na frente sentimos ficar cada vez mais apertado por conta dos minutos que perdemos aqui e acolá.

Eu sou O GRUPO - Foto: Priscila Beal

Muito estresse e pressão, muitas horas perdidas de sono, muito medo e muitas incertezas acompanharam-me durante o trajeto. Mas hoje carrego comigo a certeza de que foi uma das melhores experiências que tive (e terei) em toda a minha vida. Tudo era muito diferente do que eu estava acostumada, e o mais curioso é que pude me conhecer melhor durante e após todo o processo. Ao fim de tudo eu me sentia transformada. A expedição foi tão gratificante que não existem palavras pra descrever o meu sentimento de ter participado de tudo aquilo de uma maneira tão profunda e real. Nada vai apagar da minha mente e do meu coração tudo o que pude viver.

Priscila Beal é fotógrafa, formada em Rádio TV pela UNESP, recebeu o certificado de Expedicionária Nível 3 pela atuação no Curso de Formação de Expedicionários - Expedição Amazônia por Terra 4x4 tendo percorrido mais de 6 mil km entre Minas até o Acre, além do Peru. Atualmente é assistente do documentarista de natureza, Fernando Lara na Expedição Bodoquena 2016/17. 

 

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Chegou o projeto V-ONÇA: ecoturismo de observação focado em onças-pintadas no Pantanal

June 6, 2017

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